Os
benfiquistas teimam em esquecer que o seu clube tem mais de 100 anos de
História. Por essas “redes sociais” e “blogs” fora fazem-se, diariamente,
sondagens, artigos de opinião ou fotografias a criticar o atual Presidente do
Benfica e a apelidá-lo como o “pior Presidente da História do clube”, com Manuel
Damásio e João Vale e Azevedo a completarem a trilogia.
Alberto
Miguéns é, provavelmente, uma das pessoas que mais se dedicou à história do
Benfica. Embora eu nem sempre esteja de acordo com algumas das suas análises,
sei respeitar o seu lugar como talvez o mais conhecedor da história gloriosa do
nosso clube.
Na sua
página na Internet, Em defesa do Benfica, na análise que faz aos 32 Presidentes
eleitos ao longo de 108 anos de Clube (excluiu o primeiro Presidente José Rosa Rodrigues
por ter sido nomeado aquando da fundação do clube), dá especial valor aos
títulos conquistados pela equipa de honra da secção do futebol, deixando uma
menor importância às modalidades, mas tem sempre em conta, baseando-se numa
frase de Joaquim Ferreira Bogalho, a forma como o clube foi “entregue” à
Direcção que toma posse e como, passados uns anos, esta o “deixa”. Julgo,
porém, que mais dois critérios deveriam fazer parte da análise, os quais irei
acrescentar naquela que farei ao longo deste texto: o indelével benfiquismo e a
obra “térrea” levantada.
Começando
pelos dois Presidentes anteriores a Manuel Vilarinho, Manuel Damásio foi eleito
em Janeiro de 1994 e pôs o seu lugar à disposição após três campeonatos
perdidos para o FC Porto e uma derrota pesada em Vila do Conde no início da
época 1997/98, quando já decorria o seu segundo mandato.
Recebeu a
“batata quente” de uma Direção em que o Presidente Jorge de Brito, e seus
pares, eram figuras de descrédito na nação benfiquista depois do escandaloso
Verão Quente e das rescisões dos contratos, unilaterais e por justa causa, de
Pacheco e Paulo Sousa rumo ao Sporting. João Pinto quase seguiu o mesmo
caminho, mas um “raide” de Jorge de Brito a Madrid ainda conseguiu evitar a sua
saída.
Apesar da
falta de liderança e da situação financeira ser preocupante, de Jorge de Brito
nunca se duvidou do seu amor ao clube. Era Águia de Ouro, o seu Pai um
conhecido benfiquista, tinha sido vice-Presidente de João Santos no mandato
anterior e todos sabiam o quanto era capaz de delapidar do seu próprio
património em nome do clube, como é disso exemplo a oferta da pista de tartan
no mandato de Borges Coutinho.
Mesmo com a
confusão instalada, Manuel Damásio ainda venceu esse Campeonato Nacional
1993/94 com Toni à frente da equipa, com uma espantosa vitória por 3-6 em
Alvalade, e chegou às meias-finais da Taça das Taças. No entanto, errou – embora
na altura ninguém acreditava que a decisão era incorreta – ao despedir o treinador
campeão, no final dessa época, substituindo-o por Artur Jorge, Rei em Paris,
que veio a desfazer uma equipa campeã ao preterir Isaías, Paneira e Veloso por
jogadores como Tavares, Nelo, Paulo Bento e outros.
Na verdade, Artur
Jorge também durou pouco como treinador da principal equipa e, na época
1995/96, já foi o seu adjunto Mário Wilson, “bombeiro” de serviço, a vencer a
Taça de Portugal por 3-1 frente ao Sporting, final à qual o Benfica voltaria a
chegar em 1996/97 com Manuel José, embora, desta feita, derrotado por 3-2
contra o Boavista.
No que diz
respeito ao estádio, foi o responsável por trazer conforto ao antigo Estádio da
Luz. Embora tenha diminuído a lotação, o novo fosso e as cadeiras vermelhas
faziam melhor figura do que o cimento para a exigência dos adeptos perante um
século XXI que se aproximava.
Embora
extremamente educado, cortês e um senhor no trato, Manuel Damásio não foi capaz
de ver para além da poeira dos dias que corriam. Conseguiu fazer ultrapassar o
número dos 100 000 sócios, mas era, principalmente, tempo de profissionalizar o
clube, pois daí dependeriam as vitórias do futuro. Contudo, tal não se
verificou e as entradas e saídas de jogadores ocorriam de forma amiúde, até que
uma equipa, sempre às costas de João Pinto, se tornou insustentável. Como bom
benfiquista, incapaz de fazer melhor, abriu o clube a ser discutido…
Essas
eleições de 1997 são, provavelmente, o maior erro histórico do Sport Lisboa e
Benfica. A campanha fabricou um derrotado chamado Luís Tadeu e deu a vitória a
um muito “desejado” Pinto da Costa vermelho. João Vale e Azevedo tinha a campanha
preparada, pois tinha concorrido contra Damásio pouco tempo antes. Ao sentir a
porta “aberta”, venceu as eleições e, em três anos, nunca venceu qualquer
Campeonato Nacional ou Taça de Portugal. Sofreu ainda a maior derrota de sempre
do clube nas competições europeias e “incendiava” as assembleias gerais do
clube com decisões polémicas e duvidosas. Deu pouco apoio às modalidades –
embora tenha apostado no ciclismo – e fez tábua rasa à formação futebolística
depois de uma noite mal dormida.
Tudo o que Vale e Azevedo fazia era “estranho” e os sócios eram pouco informados. A
título de exemplo, de forma súbita, fechou-se uma bancada no Estádio numa
promessa vã de renovação quando já se começava a falar da organização próxima
de um Europeu em Portugal. Todas as semanas os “ingleses” iam investir no
Benfica. E tardava a aparecer o “Benfica à Benfica” prometido em campanha
eleitoral.
Isolado dos
outros clubes no movimento associativo nacional, desprotegido pela comunicação
social e separatista dos sócios do seu clube, tendo vencido com pouca margem de
diferença as eleições de 1997, foi, naturalmente, derrotado no ano 2000 por uma
maioria silenciosa que deu voltas ao Colombo e ao Estádio da Luz.
No meio de
tanta “trapalhada”, veio a ser preso mais tarde por processos relacionados com
o Benfica, o que fez pôr em causa o seu indelével benfiquismo, isto é, não ser
capaz de pôr o clube à frente do seu próprio benefício. Foi o único caso alvo
de expulsão de sócio em Assembleia Geral na história do clube. Avaliando hoje,
talvez essa decisão não tenha sido injusta, mas o fantasma criado do “seu”
regresso reencarnado por alguém, que ainda hoje se vive, não é mais do que uma
repercussão desse sangue derramado...
E foi assim
que Manuel Vilarinho encontrou um clube endividado, sem mística e sem o seu jornal
centenário, mas com um jovem treinador, de seu nome José Mourinho, a moralizar
uma equipa de “operários”, de qualidade duvidosa, mas que logo num dos
primeiros jogos do mandato foi capaz de vencer por 3-0 um Sporting campeão em
título.
Contudo, por
pretensa arrogância do jovem Mourinho, Vilarinho decide substituí-lo pelo seu
escolhido na campanha eleitoral, o ex-campeão Toni. Este até esteve perto de
alcançar o Boavista no primeiro lugar não fosse aquela bola no poste de Pierre
Van Hooijdonk a cruzamento de Carlitos… Mas acabou em 6º lugar e pouco melhor
ficou o Benfica classificado nos restantes anos do seu mandato. Não obteve
qualquer título conquistado, algo que o seu indubitável benfiquismo não deve
perdoar a si próprio.
Todavia, teve
como especial mérito o regresso dos tempos de acalmia e fazer os sócios voltar
a acreditar, de novo, no futuro… Apesar dos parcos resultados, a SAD começava a
ganhar contornos de grupo empresarial e os sócios respondiam às subscrições de
capital social. Era também construído o novo Estádio em 2003 para dar abrigo ao
Euro 2004. E o clube regressava aos dias de credibilidade.
Importa
talvez não deixar de referir que a essência deste novo Estádio em nada se
coadunou, à luz do que já vinha acontecendo aos poucos com o antigo, com os
princípios de origem social do Sport Lisboa e Benfica. A bancada central dos
sócios do Benfica, oriundos de diversas origens sociais, deixou de existir.
O rico “na
central (de negócios)” e o pobre “atrás do baliza” não são de todo uma metáfora
do Benfica verdadeiro. E a ideia de “clientelismo” criada desde então é uma das
mais importantes e das mais atuais críticas dos sócios aos últimos anos de
gerência do clube.
Independentemente
disso, foram, com toda a certeza, estes últimos feitos do mandato de Manuel
Vilarinho que levaram Luís Filipe Vieira, homem forte do futebol desde 2001 e,
juntamente com Mário Dias, um dos grandes responsáveis de “levantar” o Estádio,
a vencer por larga margem as eleições de 2003.
Luís Filipe Vieira viria a ser eleito por mais duas
vezes, nomeadamente nos anos eleitorais de 2006 e 2009, com mais de 90 % de
expressão dos votos. Merece, por isso, essa saudação, o cargo que ainda hoje ocupa
e deve existir respeito por aquela que tem sido, inequivocamente, a vontade da
maioria benfiquista.
Ainda assim, como qualquer outro que represente os
órgãos sociais do clube, não está isento de críticas e acima da instituição
Sport Lisboa e Benfica, sobretudo em ano eleitoral. E a verdade é que nenhum
sócio tem ficado indiferente à forma como é tratado, inclusivamente pelos
órgãos de comunicação do clube, quando discorda de algum dos seus atos.
Além disso, mesmo que se reconheçam, sem dúvida, bons
momentos na gestão do clube por parte de LFV, tais como a profissionalização
das estruturas do clube, o aumento do número de sócios, a proliferação e
uniformização das casas, a Fundação Benfica, as contas auditadas (o que -
note-se – não invalida os resultados negativos e o passivo “astronómico”), o
aumento significativo da qualidade da equipa de futebol-e tudo aquilo que a
rodeia, como os departamentos clínicos, observadores e segundas equipas - em
relação aos mandatos imediatamente anteriores, os resultados da equipa
principal de futebol não são os melhores e são manifestamente insuficientes para
este clube vermelho e branco com mais de 100 anos de vitórias: em 9 anos de
Presidência de Luís Filipe Vieira, a nível doméstico, o Benfica conquistou dois
campeonatos, uma Taça de Portugal (esteve presente noutra final), quatro Taças
da Liga e uma Supertaça. No que diz respeito às provas europeias, nunca
ultrapassou os quartos-de-final na Champions League e chegou por uma vez às
meias-finais da Liga Europa, no ano em que a final foi disputada por FC Porto e
SC Braga.
É certo também que a
“refundação” das normas estatutárias não caiu bem à Presidência de LFV.
Todos sabem que Luís Filipe Vieira era um desconhecido entre os benfiquistas
antes da sua aparição no mandato de Manuel Vilarinho. Mas assim aconteceu
também com outros Presidentes e outras importantes figuras que deram enormes
contributos para o crescimento do Benfica. Serve disso exemplo o ministro das
Obras Públicas, Engenheiro Cancella de Abreu, eleito mais tarde Presidente da
Mesa da Assembleia Geral do Clube, que, em 1946, aquando da sua audiência
concedida aos corpos sociais do clube, onde se prontificou a resolver algumas
questões com a Câmara Municipal de Lisboa a propósito dos terrenos para a
construção do Estádio da Luz, afirmou, sem pudor aos dirigentes benfiquistas: “É
só um empurrãozinho; e , se for necessário, eu próprio me farei sócio do
Benfica...”. Um simples exemplo histórico de que os 25 anos ininterruptos
de filiação associativa não fazem qualquer sentido nos novos Estatutos do Sport
Lisboa e Benfica.
Não menos importante, e algo também nunca visto na
história do clube, deve ser reconhecido que o levantamento de suspeitas
(confirmadas pelo próprio) sobre a sua associação a clubes rivais, tem
contribuído para colocar o Benfica à mercê do falatório de adeptos de
outros clubes e tem permitido o ato detestável de se estar constantemente a
medir o “nível” de benfiquismo entre os benfiquistas e a fazer reinar o
desrespeito entre eles.
Relativamente à obra “térrea” levantada, foi construído o Centro de Estágios no Seixal, será
inaugurado no próximo mês o Museu do clube e a Benfica TV tratou-se de um
projeto pioneiro em Portugal. Mas, o próprio Museu nos fará ver que, ao longo
da nossa História, em tempos de normalidade, o mais difícil nunca foi fazer...
foi pagar...
Assim, embora já existam vários critérios que podem ser avaliados no presente, a
análise do lugar de Luís Filipe Vieira na história do clube ainda não atingiu o
seu pico de maturação. Deve, pois, ser realizada com um suficiente
distanciamento no tempo, após a sua saída do clube e como a sua Direção "deixará"
o clube para a Direcção seguinte .
Será
Luís Filipe Vieira de novo candidato nas eleições que se aproximam e ter mais 4
anos de mandato pela frente? Se sim, esses 4 anos farão toda a diferença na sua
avaliação como Presidente, podendo vir a ter razão aqueles que incluírem LFV
nos "piores", nos "melhores" ou mesmo nos
"razoáveis" Presidentes da história encarnada. Mas o correto, para
já, parece-me que é aguardar... E analisar a totalidade dos seus mandatos no
devido tempo... Ou não votar nele se insatisfeitos.
Em
relação a todos os restantes 31 Presidentes eleitos na História do Sport Lisboa
e Benfica (excluir-se-ão, propositadamente, desta análise final Luís Filipe
Vieira e José Rosa Rodrigues), muito dificilmente algum deles reunirá todos os
critérios de forma intocável, sobretudo porque Presidentes em momentos diferentes
da história do clube lidaram com problemas diferentes. No entanto, avaliando por
critério, os melhores e os piores poderiam ser distribuídos da seguinte forma:
1)
Títulos importantes conquistados pela equipa de honra de Futebol :
Melhor:
Maurício Vieira de Brito ; Pior: João Vale e Azevedo
-
Maurício Vieira de Brito foi o Presidente que contratou Eusébio e o primeiro
Campeão Europeu, entre vários outros títulos conquistados. Duarte Borges
Coutinho ocuparia, quase com toda a certeza o segundo lugar.
-
João Vale e Azevedo não conquistou qualquer título pela equipa principal de
futebol, embora o seu sucessor também não tenha conquistado.
2)
Situação como “encontra” o clube e situação como o “deixa”:
Melhor:
João José Pires ; Pior: João Vale e Azevedo
-
João José Pires recebe um “Sport Lisboa” que havia estado perto de ser extinto
e entrega-o Campeão de Lisboa em 1910 e responsabilizou-se, pessoalmente, por
várias dívidas. Talvez Manuel Vilarinho mereça o segundo lugar como igualmente
um dos melhores neste critério.
-
João Vale e Azevedo deixa o clube sem soluções na banca, sem dinheiro na
tesouraria, sem equipa de futebol, sem jornal e acusado de devedor por parte de
vários parceiros institucionais.
3)
Indelével Benfiquismo:
Melhor:
Manuel da Conceição Afonso ; Pior: Nuno Freire Themudo
-
Encadernador de profissão, Manuel da Conceição Afonso foi eleito por 5 vezes
Presidente do Sport Lisboa e Benfica numa vida inteira dedicada ao clube.
-
Em 1919, Nuno Freire Themudo moveu uma ação de despejo ao Sport Lisboa e
Benfica, deixando o clube à mercê de perder todas as suas instalações.
4)
Obra “térrea” levantada:
Melhor:
Joaquim Ferreira Bogalho ; Pior: Nuno Freire Themudo
-
O Estádio da Luz, inaugurado em 1954, só não se chamou Joaquim Ferreira Bogalho
porque este não o quis.
-
Nuno Freire Themudo pelas mesmas razões escritas no critério anterior.
Para
terminar esta crónica, julgo que existe ainda um outro nome que, embora nunca
tenha sido Presidente (não o quis!), não pode passar ao lado. A adicionar ao facto
de praticamente completar todos estes critérios de análise, ainda tem mais um
insuperável: a sua imensa humildade.
De
seu nome Cosme Damião, o “Pai” do Sport Lisboa e Benfica, o maior clube de
Portugal.